Ano VII nº 106 -

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Gripe aviária x gripe pandêmica:
ameaça confunde população

Marcelo de Andrade

Autoridades da Organização Pan-americana de Saúde (Opas) estão preocupadas com a repercussão entre a população da expansão do vírus mutante H5N1 pelo hemisfério ocidental. Embora justificada, em alguns casos, essa preocupação reflete um pouco a confusão sobre o que é gripe aviária, também conhecida como influenza aviária, e o que é gripe pandêmica. A desinformação se espalha tão velozmente quanto a nova cepa e prejudica o trabalho das autoridades sanitárias e de saúde, além de espalhar o pânico e a histeria entre a população. 

Otávio Oliva, expert em doenças virais, explica que a gripe aviária e a pandêmica são coisas diferentes. Parte da confusão, acredita, acontece devido ao uso genérico do termo gripe aviária para três fenômenos diferentes: gripe aviária em aves, gripe aviária em pessoas e gripe pandêmica, isto é, uma cepa mutante de um vírus de gripe aviária que adquiriu a habilidade de se espalhar facilmente entre humanos.

Altamente patogênico, o vírus H5N1, alvo principal da atenção das autoridades sanitárias mundiais, já foi responsável pela morte de milhões de aves na Ásia. Em cinco países – Camboja, China, Indonésia, Tailândia e Vietnã – onde atingiu status de endemia entre pássaros e, em raros casos, contaminou humanos, o vírus já infectou mais de 100 pessoas e matou 70 delas. A primeira aparição pública dessa variante foi detectada em 1997 em Hong Kong, quando causou doença respiratória severa em 18 pessoas. Seis delas morreram.

Até o fechamento desta edição (15/3), o vírus já havia percorrido mais de uma dezena de países, incluindo nações asiáticas, Grécia, Romênia, Turquia, Ucrânia,  Alemanha e Escandinávia, provavelmente transportado por pássaros migratórios. Na Alemanha, um gato doméstico morreu em conseqüência do H5N1.

As aves selvagens migratórias lideram a lista de vetores do vírus. Elas podem levar o H5N1 para as Américas e infectar inicialmente as aves domésticas. Mas se a cepa se infiltrar no território americano através dos pássaros selvagens, ainda assim continuará a ser uma doença típica de aves. “Ele poderia infectar isoladamente alguns humanos, mas ainda assim teria de se transformar para se tornar facilmente transmissível entre pessoas. Esse processo pode levar tempo”, diz Oliva.

Tempo é uma condição bastante relativa neste caso. Quanto mais o H5N1 se espalha geograficamente, maior as chances dele interagir com novos hospedeiros humanos e animais e desenvolver a habilidade de contaminar pessoas. Mas alguns especialistas acreditam que uma variante pandêmica do H5N1 tem maior probabilidade de eclodir na Ásia, onde o vírus já está confortavelmente estabelecido entre as aves, do que em países onde acabou de aterrissar. A verdade é que não há como predizer, com certeza, onde a pandemia irá surgir e quantas pessoas poderá matar. Epidemias de gripe anuais atacam de 5% a 15% da população, provocando aproximadamente de 3 a 5 milhões de casos no mundo e 250 mil a 500 mil mortes, principalmente entre os mais idosos. De acordo com modelos de simulação, uma pandemia teria potencial para matar entre 2 a 7,4 milhões de vidas. O governo norte-americano estima que 40% da força de trabalho das empresas vão tirar licença médica remunerada em virtude de uma eventual pandemia.

Porém, quando a versão pandêmica surgir, onde quer que seja, é provável que se espalhe rapidamente ao redor do mundo de humano para humano, incluindo as Américas. A Organização Mundial de Saúde está elaborando um plano de contingência para tentar conter o vírus humano quando emergir, usando uma droga antiviral para tratar as pessoas na origem da pandemia. Esta estratégia nunca foi utilizada antes e as chances de sucesso são ignoradas.

O roteiro da transmissão entre aves e homens

Os vírus de influenza estão presentes nas fezes, sangue e secreções respiratórias  das aves infectadas. O contato direto com as aves infectadas por meio de inalação dessas secreções (inclusive durante a limpeza e a manutenção nos aviários ou criadouros sem os cuidados necessários de proteção) ou durante o abate ou manuseio de aves infectadas podem ocasionar a contaminação em humanos. Segundo o Ministério da Saúde, não foi evidenciada transmissão pela ingestão de ovos ou pelo consumo de carnes congeladas ou cozidas de aves infectadas.

O que falta para o H5N1 virar pandemia

O H5N1 tem potencial para deflagrar uma pandemia. Se continuar a circular entre animais, haverá oportunidade para infectar e se adaptar ao organismo humano. Baseada nas evidência atuais, o H5N1 não salta facilmente as barreiras entre as espécies até chegar a infectar os humanos. O número pequeno de pessoas vitimadas em grandes áreas geográficas, apesar das dezenas de milhões de aves infectadas, durante dois anos, leva a esta conclusão.

Segundo a OMS, três condições são necessárias para a pandemia ter início: um novo subtipo de gripe que não circulou antes entre humanos emergir (um raro evento, diga-se de passagem). Essa nova variante tem de ser capaz e causar doença em humanos e o vírus precisa ser capaz de ser transmitido facilmente entre humanos. Apenas esta última condição não foi preenchida pelo H5N1.

Sabe-se que o H5N1 tem a capacidade de ser transmitido ocasionalmente de humano para humano. Entretanto, essa transmissão apenas ocorreu em circunstâncias excepcionais, geralmente envolvendo um contato muito próximo com o portador durante a fase aguda da doença. Até o momento, informa a OMS, o H5N1, não conseguiu ir além de uma geração de contatos próximos.

Sintomas

Os primeiros sintomas de uma gripe humana podem ocorrer 24 horas após o contágio. O paciente pode apresentar febre maior do que 38°C, dor de cabeça, dor nos músculos, calafrios, fraqueza, tosse seca, dor de garganta, espirros e coriza. Além disso, pode apresentar pele quente e úmida, olhos vermelhos e lacrimejantes. Crianças podem ter ainda aumento de gânglios no pescoço, diarréia e vômitos.

Para saber Mais

Ministério da Saúde
http://dtr2001.saude.gov.br/influenza/principal_gripe.htm
E-mail: gripe@saude.gov.br

Organização Mundial de Saúde (OMS)
http://www.who.int/csr/disease/avian_influenza/avian_faqs/en/index.html
http://www.who.int/mediacentre/factsheets/avian_influenza/en/index.html
http://www.who.int/csr/disease/influenza/WHO_CDS_2005_29/en/


Biossegurança evita riscos

Cirurgiões-dentistas e profissionais auxiliares correm risco desde exposição ocupacional até material biológico infectado. Um das formas de contaminação é através da transmissão aérea, por meio de gotículas e aerossóis que atingem a pele e mucosa. O contágio pode ocorrer também por inalação ou ingestão e também quando infectam as superfícies. Tais  gotículas e os aerossóis são gerados durante a tosse, espirro e fala, ou são provenientes dos instrumentos rotatórios, seringas tríplices, equipamentos ultra-sônicos e por jateamento.

A Editora Anvisa lançou um manual que orienta sobre as melhores práticas de biossegurança em um consultório odontológico para evitar os riscos ocupacionais. Serviços Odontológicos: Prevenção e Controle de Riscos tem 152 páginas e trata de tópicos como  infra-estrutura, riscos ocupacionais, gerenciamento de resíduos, controle de infecção e doenças transmissíveis, entre outros.

Para evitar a transmissão aérea, a obra recomenda os seguintes cuidados sanitários:

• Usar dique de borracha, sempre que o procedimento permitir.

• Usar sugadores de alta potência.

• Evitar o uso da seringa tríplice na sua forma spray, acionando os dois botões

ao mesmo tempo.

• Regular a saída de água de refrigeração.

• Higienizar previamente a boca do paciente mediante escovação e/ou bochecho

com anti-séptico.

• Manter o ambiente ventilado.

• Usar exaustores com filtro HEPA.

• Usar máscaras de proteção respiratórias.

• Usar óculos de proteção

• Evitar contato dos profissionais suscetíveis com pacientes suspeitos de sarampo, varicela, rubéola e tuberculose.

 

O título pode ser copiado gratuitamente a partir da página  http://www.anvisa.gov.br/servicosaude/manuais/manual_odonto.pdf ou adquirido junto á editora (R$ 25,00). Informações: www.anvisa.gov.br.

 

Na próxima edição: Anvisa orienta a como preparar alimentos derivados de aves para evitar contaminação

 

Ed.106_17/03/2006 



 

Tamiflu e relenza, as duas únicas drogas disponíveis

A indústria farmacêutica somente conseguiu desenvolver uma classe de antiviral que demonstrou ter algum sucesso contra o H5N1 humano isolado na Ásia: oseltamivir (Tamiflu), produzido pela Roche, e o zanamivir (Relenza), comercializado pela GlaxoSmithKline.   

 

O plano de contingência brasileiro

O Ministério da Saúde está finalizando o seu plano de contingência para a próxima pandemia de influenza. Este plano vem sendo discutido desde o início do ano passado, após a constituição do Comitê Brasileiro de Preparação do Plano de Contingência para uma pandemia de influenza (Portaria N° 36, de 22/12/03, publicada no DOU de 23/12/03).

Mais recentemente foi constituído um grupo de trabalho para acelerar a elaboração do Plano, cuja versão preliminar encontra-se disponível no site www.saude.gov.br/
svs/influenza. Este plano prevê ações nas áreas da vigilância epidemiológica da influenza humana e animal, organização da assistência, aquisição de um estoque estratégico de antivirais, investimentos para a produção nacional de uma vacina específica, informação e comunicação, defesa civil, ações em portos, aeroportos e fronteiras, dentre outros, e deve integrar um plano global do governo federal para o enfrentamento de uma situação emergencial como esta, caso ela venha a ocorrer.

 


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