Ano VII nº 114 -

Últimas Notícias

Artigos/Crônicas

Bastidores

Cash

Corpo&Cuca

Editorial

Empresas

Lazer&Cia

Mural/Cartas

Na Rede

Pesquisa&Tecnologia

Profissão

Saúde

Saúde Bucal

3º Setor

Utilidade Pública

SERVIÇOS

Anuncie

Expediente

Fale com o JSO

Arquivo JSO

Legislação

Estatística

LINKS ÚTEIS

Agenda grátis

Clima/Tempo

Concursos

Cotações/Moedas

Horóscopo

Portal da Câmara

Portal do Consumidor

Viagens


Meu sorriso do ano - 2006

Paulo Capel Narvai *

Um diastema entre os incisivos centrais superiores chama a atenção onde quer que se apresente. Tais espaçamentos entre os dentes tornam fácil o trabalho de cartunistas quando o portador é uma celebridade. Cartunistas adoram “carregar nas tintas” e exagerar bastante. O leitor fará, sem maiores dificuldades, rapidamente, uma enorme lista de celebridades com essa característica – e, por isso, vítimas do traço impiedoso dos desenhistas.

Assim, por certo que este colunista, ao se preparar para eleger o vencedor do Prêmio Meu Sorriso do Ano é tentado, a cada edição, a ceder a essa facilidade e destinar o prêmio a um portador de sorriso com diastema.

Não foi diferente em 2006.

E não faltaram candidatos: o descaso de Ronaldo com a (triste) sorte da seleção brasileira de futebol na Copa da Alemanha mereceria muitos parágrafos – e, pelo retumbante fracasso, o Prêmio.

Lula é candidato permanente ao Prêmio Meu Sorriso do Ano. E 2006 despontou, para ele, como um ano de grandes possibilidades ao Prêmio, qualquer que fosse o motivo, se é que o leitor me entende. Mas, pelo menos nesta “corrida”, ficou pelo caminho – ao lado da histriônica Heloísa Helena. A ex-senadora alagoana, em cuja cadeira agora está ninguém menos do que Fernando Collor, despontou em alguns momentos mas perdeu-se entre muitos adjetivos. Até que largou bem na corrida presidencial, mas faltaram-lhe fôlego e, sobretudo, um projeto para o país. Em contrapartida, sobraram “vigaristas”, “canalhas”, “ladrões” e “bandidos” em seu discurso.

No plano internacional, como ignorar a tétrica Condoleeza Rice? A poderosa da Casa Branca pontificou praticamente durante todo o ano. Mas perdeu feio o nosso Prêmio, com diastema e tudo, quando se pôs ao piano em plena escalada bélica no sul do Líbano. Tratei do conflito na região, aqui neste espaço, no artigo “A guerra no Oriente Médio”.

Aquilo foi macabro. A guerra, como sempre, e, também, Miss Rice ao piano.

Sinto náuseas só de me lembrar da cena. Em meio às imagens horrorosas (como sempre) da guerra, com corpos rotos em beiras de estradas, gente fugindo dos bombardeios, e crianças (e jovens, adultos, grávidas, idosos...) em prantos, em meio a tudo isso, lá estava Miss Rice.

Instalou-se em frente ao piano, e... tocou Brahms.

Inacreditável: a senhorita Rice tocou Brahms como se nada estivesse acontecendo ao seu redor; e como se ela não fosse quem é.

Ao ver a cena, pela TV, me senti mal, quase vomitei. E senti raiva, muita raiva. Raiva da minha impotência para fazer cessar a barbárie, raiva-ódio dos que fazem da guerra business. Raiva de todos quantos, de algum modo, alimentam esses infernos na face da terra.

Por isso, por simbolizar tudo quanto abomino (a negação da política e a recorrente opção por soluções militares para conflitos) passei um traço vermelho no nome de Miss Rice. Dona Condoleeza, com diastema e tudo, virou uma mancha vermelha no papel onde fui anotando os nomes dos concorrentes ao Prêmio – 2006.

E foi assim que, alguns dias depois, revendo a lista e pensando nas minhas razões para eliminar Miss Rice, que se impôs, para mim, o nome do ganhador do Prêmio Meu Sorriso do Ano – 2006. Ou melhor: o nome da ganhadora.

Sim, caro leitor, neste ano temos uma vencedora.

Devo admitir que tive, digamos, um probleminha doméstico, quando anunciei o vencedor de 2005. Minha mulher alertou-me que, desde a criação do Prêmio, só homens haviam sido galardoados. E que eu tratasse de, neste 2006, “premiar uma mulher!” E disse isso em tom de ameaça. Achei prudente não desapontá-la, embora estivesse disposto a considerar a eleição de algum homem novamente se isso, por uma ou outra razão, se impusesse. Afinal, deveres de consciência são deveres de consciência, não há prudência que possa anulá-los.

Devo esclarecer, contudo, que nem precisei vivenciar o conflito homem-versus-mulher, neste contexto.

Definido “o perfil” – o de uma mulher cujos valores fossem o oposto dos que marcam a biografia de Miss Rice –, então meu trabalho ficou facilitado. A decisão se impôs quando, num dia de inverno, envolvida com um trabalho escolar, minha filha perguntou: “Pai, é verdade que o pai da Michelle  Bachelet foi assassinado pelo Pinochet?”.

Naquele momento la señora Bachelet praticamente levou o Prêmio, confirmado posteriormente com sua reação, na condição de Chefe de Estado, à morte de Pinochet e pela punição ao neto militar do ditador, expulsando-o do Exército, logo após o fascista-junior ter feito declarações idiotas, com a certeza da impunidade.

Ao consultar “minhas bases” sobre o Prêmio – 2006 houve um sólido consenso quanto ao merecimento. É dela, portanto, da Presidente da República do Chile, Michelle  Bachelet, o Meu Sorriso do Ano – 2006.

E, olhando bem, tem ou não tem um diastema naquele sorriso?

* Paulo Capel Narvai - Cirurgião-dentista sanitarista. Mestre e Doutor em Saúde Pública. Professor Associado (Livre Docente) da Universidade de São Paulo. Autor de Odontologia e Saúde Bucal Coletiva (Ed.Santos, 2002). E-mail: pcnarvai@usp.br



 

 


Copyright © 1999 Edita Comunicação.Todos os direitos reservados. Este material não pode ser publicado,
transmitido por broadcast, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização por escrito.