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Um
diastema entre os incisivos centrais superiores chama a atenção onde
quer que se apresente. Tais espaçamentos entre os dentes tornam fácil
o trabalho de cartunistas quando o portador é uma celebridade.
Cartunistas adoram “carregar nas tintas” e exagerar bastante. O leitor
fará, sem maiores dificuldades, rapidamente, uma enorme lista de
celebridades com essa característica – e, por isso, vítimas do traço
impiedoso dos desenhistas.
Assim, por certo que este colunista, ao se preparar para eleger o
vencedor do Prêmio Meu Sorriso do Ano é tentado, a cada edição,
a ceder a essa facilidade e destinar o prêmio a um portador de sorriso
com diastema.
Não
foi diferente em 2006.
E
não faltaram candidatos: o descaso de Ronaldo com a (triste) sorte da
seleção brasileira de futebol na Copa da Alemanha mereceria muitos
parágrafos – e, pelo retumbante fracasso, o Prêmio.
Lula
é candidato permanente ao Prêmio Meu Sorriso do Ano. E 2006
despontou, para ele, como um ano de grandes possibilidades ao Prêmio,
qualquer que fosse o motivo, se é que o leitor me entende. Mas, pelo
menos nesta “corrida”, ficou pelo caminho – ao lado da histriônica
Heloísa Helena. A ex-senadora alagoana, em cuja cadeira agora está
ninguém menos do que Fernando Collor, despontou em alguns momentos mas
perdeu-se entre muitos adjetivos. Até que largou bem na corrida
presidencial, mas faltaram-lhe fôlego e, sobretudo, um projeto para o
país. Em contrapartida, sobraram “vigaristas”, “canalhas”, “ladrões” e
“bandidos” em seu discurso.
No
plano internacional, como ignorar a tétrica Condoleeza Rice? A
poderosa da Casa Branca pontificou praticamente durante todo o ano.
Mas perdeu feio o nosso Prêmio, com diastema e tudo, quando se pôs ao
piano em plena escalada bélica no sul do Líbano. Tratei do conflito na
região, aqui neste espaço, no artigo “A guerra no Oriente Médio”.
Aquilo foi macabro. A guerra, como sempre, e, também, Miss Rice
ao piano.
Sinto náuseas só de me lembrar da cena. Em meio às imagens horrorosas
(como sempre) da guerra, com corpos rotos em beiras de estradas, gente
fugindo dos bombardeios, e crianças (e jovens, adultos, grávidas,
idosos...) em prantos, em meio a tudo isso, lá estava Miss Rice.
Instalou-se em frente ao piano, e... tocou Brahms.
Inacreditável: a senhorita Rice tocou Brahms como se nada estivesse
acontecendo ao seu redor; e como se ela não fosse quem é.
Ao
ver a cena, pela TV, me senti mal, quase vomitei. E senti raiva, muita
raiva. Raiva da minha impotência para fazer cessar a barbárie,
raiva-ódio dos que fazem da guerra business. Raiva de todos
quantos, de algum modo, alimentam esses infernos na face da terra.
Por
isso, por simbolizar tudo quanto abomino (a negação da política e a
recorrente opção por soluções militares para conflitos) passei um
traço vermelho no nome de Miss Rice. Dona Condoleeza, com
diastema e tudo, virou uma mancha vermelha no papel onde fui anotando
os nomes dos concorrentes ao Prêmio – 2006.
E
foi assim que, alguns dias depois, revendo a lista e pensando nas
minhas razões para eliminar Miss Rice, que se impôs, para mim,
o nome do ganhador do Prêmio Meu Sorriso do Ano – 2006. Ou
melhor: o nome da ganhadora.
Sim,
caro leitor, neste ano temos uma vencedora.
Devo
admitir que tive, digamos, um probleminha doméstico, quando anunciei o
vencedor de 2005. Minha mulher alertou-me que, desde a criação do
Prêmio, só homens haviam sido galardoados. E que eu tratasse de, neste
2006, “premiar uma mulher!” E disse isso em tom de ameaça. Achei
prudente não desapontá-la, embora estivesse disposto a considerar a
eleição de algum homem novamente se isso, por uma ou outra razão, se
impusesse. Afinal, deveres de consciência são deveres de consciência,
não há prudência que possa anulá-los.
Devo
esclarecer, contudo, que nem precisei vivenciar o conflito
homem-versus-mulher, neste contexto.
Definido “o perfil” – o de uma mulher cujos valores fossem o oposto
dos que marcam a biografia de Miss Rice –, então meu trabalho
ficou facilitado. A decisão se impôs quando, num dia de inverno,
envolvida com um trabalho escolar, minha filha perguntou: “Pai, é
verdade que o pai da Michelle Bachelet foi assassinado pelo Pinochet?”.
Naquele momento la señora Bachelet praticamente levou o Prêmio,
confirmado posteriormente com sua reação, na condição de Chefe de
Estado, à morte de Pinochet e pela punição ao neto militar do ditador,
expulsando-o do Exército, logo após o fascista-junior ter feito
declarações idiotas, com a certeza da impunidade.
Ao
consultar “minhas bases” sobre o Prêmio – 2006 houve um sólido
consenso quanto ao merecimento. É dela, portanto, da Presidente da
República do Chile, Michelle Bachelet, o Meu Sorriso do Ano
– 2006.
E,
olhando bem, tem ou não tem um diastema naquele sorriso? |